sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O Inventor de Passados

Era inverno naquela pacata ilha, e os aldeões que não podiam sair à rua devido ao inverno rigoroso daquela região, reuniam-se todos no grande casarão no centro da cidade, casarão este que pertencia ao Contador. Contador por assim dizer, todos o conheciam por este nome, pois em todos os invernos de todos os anos os aldeões se reuniam para ouvir o senhor José contar as suas aventuras, algumas vividas, outras sonhadas e ainda algumas inventadas. Durante todas as estações quentes o Contador viajava para poder dar aos seus amigos aldeões histórias quentes das suas aventuras. Na aldeia todos gostavam do contador, apesar de ser um jovem já com algumas décadas vividas, fossem crianças como adultos, não perdiam a oportunidade de ouvir uma das suas histórias.
Eram sempre diferentes, ora falava sobre as suas cicatrizes de guerra, ora sobre o enorme tubarão que pescara perto da costa de um país longínquo que muitos nem sonhavam que existia. O inverno aproximava-se de novo e, como de costume, todos aguardavam ansiosamente pela chegada do contador. Esperaram um dia, dois dias, três dias, um mês, dois meses, até que a notícia chegou, o contador tinha sido apanhado no meio de uma guerra civil para os lados de França e havia sido morto por uma granada deixada para trás pelos militares. Toda a vila ficou chocada com a notícia, ninguém sabia o que dizer ou o que fazer, como iriam eles aceitar a morte do seu grande contador, que era o seu consolo durante os dias chuvosos e frios de inverno. Passados alguns anos a vila estava quase deserta, algumas pessoas tinham simplesmente abandonado as suas casas e viajado para a ilha vizinha, as mais velhas tinham morrido, e dos cinco centos de aldeões havia apenas sobrado um, um rapaz na casa dos vinte, que dedicava a sua vida a cuidar do casão do senhor José e a escrever as histórias por ele contadas. “Histórias do Passado” era este o título daquele livro dedicado ao Sr. José, livro publicado alguns anos depois e que ainda hoje circula pelas mesas de alguns leitores aplicados.




Pedro Nunes nº16
P.T.I.G 2010/11

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